segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Memória: 33 anos sem a Beth do Perracini, um símbolo de generosidade, fé e amor comunitário em Poá

Por Adilson Santos

Foto tirada em meados de 1992

Hoje, 7 de setembro, o calendário marca mais um ano de saudades. Faz exatamente 33 anos que Elizabeth de Moura dos Santos — a inesquecível Beth do Perracini — partiu, em 1993. Quem a conheceu de perto sabe exatamente o tamanho do coração que ela tinha: uma mulher simples, mas de uma generosidade que não cabia dentro do peito.

Nascida na vizinha cidade de Ferraz de Vasconcelos, Beth teve uma trajetória de vida marcada por desafios desde cedo. Perdeu a mãe ainda na pré-adolescência e passou uma parte da juventude em um orfanato católico. Foi lá que viveu episódios que moldaram sua empatia e determinação: contava aos filhos que via colegas preferindo jogar pedaços de bolo no lixo a repartir com as demais. Aquilo marcou sua alma para sempre. Quando se casou e construiu sua própria família, aprendeu a cozinhar sozinha — com a ajuda dos famosos livros de receitas da União — e fez da sua cozinha um instrumento para espalhar afeto.

A história de Beth com o seu esposo, Aderbal, começou ainda em Ferraz. Nas histórias que o casal contava, ele ia buscá-la no trabalho, em uma fábrica de fitas na Rua 13 de Maio. Após o casamento, moraram por cerca de dez meses na Rua Abílio Secundino Leite antes de se mudarem para Poá, fincando raízes na Vila Perracini.

A casa da família, na Rua Santa Cruz, começou modesta: um terreno com dois cômodos e um banheiro. Aderbal, que trabalhava como eletricista, construiu cada parede com as próprias mãos, moldando blocos manuais com uma fôrma emprestada pelo Sr. Dirceu. Para conseguir erguer o restante da casa e sustentar o crescimento da família, Aderbal comprava ações de linhas telefônicas financiadas — sendo um dos primeiros do bairro a ter telefone — e depois as vendia à vista para reinvestir na obra. Com a ajuda dos filhos, o lar de blocos feitos à mão se transformou no porto seguro de uma grande família.

Ter uma linha telefônica na época era um privilégio raro no bairro, e o aparelho de casa acabou virando quase uma utilidade pública para a vizinhança. Sempre que alguém precisava fazer uma ligação de emergência ou deixar um recado para a família, era na casa da Beth que batiam. Ela abria as portas para todos com a maior presteza e paciência. Por vezes, meu pai Aderbal até chamava sua atenção, preocupado porque nem todos tinham dinheiro para pagar pelas chamadas efetuadas, mas a generosidade de Beth falava mais alto do que qualquer conta — ela fazia questão de atender a todos de braços abertos.

Todas as sextas-feiras, a casa da Vila Perracini se enchia de aromas inconfundíveis. Beth assava bolos e salgados — com destaque para uma extraordinária torta de maçã —, além de um pão doce de dar água na boca. Ela fazia questão de repartir tudo com a vizinhança.

Após 33 anos, usando a Inteligência Artificial,
Beth hoje estaria assim

Uma de suas amigas era a Dona Irene, uma mulher negra que fumava seu cigarro de palha no quintal de casa. Mesmo Beth sendo evangélica e seguindo seus costumes, a amizade entre as duas era pura, verdadeira e respeitosa. Foi inclusive na casa de Em, filha da Dona Irene, em Itaquera, que provei salada com azeite pela primeira vez na vida.

Nos anos 80, na época da febre do "bichinho do iogurte" (kefir), Beth cuidava da doação e fazia questão de distribuir as mudas para todos os vizinhos.

Com suas mãos talentosas para o tricô e o crochê, usando lãs sempre compradas no tradicional Bazar da Dona Iris, no Centro de Poá (na Rua Capitão Francisco Inácio), ela presenteava cada recém-nascido do bairro ou irmão da igreja com touquinhas e sapatinhos feitos com carinho. E quando nascia um bebê na vizinhança, lá ia a Beth dar o primeiro banho e ensinar os cuidados com o umbigo, como era costume solidário da época.

Beth foi mãe de sete filhos: Adilson, Adenilson, Elizete, Adailton, Elizangela, Edmilson e Elizandra. Mas seu amor materno e fraternal transbordava para além dos filhos, alcançando com o mesmo carinho os sobrinhos Valdir, Valter, Janete, Jair, Jamil, Jane, Joel, Oseias, Osana, Osiel e Osane.

Lembrarei sempre do carinho com que visitávamos a tia Dirce, que morava em uma travessa da antiga Rua do Moinho (hoje Rua Batuíra). No fundo do quintal da casa dela, quase no final da rua, havia um balanço à beira de um córrego — memórias de uma infância simples e feliz.

Membro ativa do coral da Igreja Assembleia de Deus, Beth tinha uma fé inabalável. Quando enfrentou o câncer no leito de casa, liberada pelos médicos para passar seus últimos momentos ao lado da família, recebia a visita das irmãs da igreja que vinham para consolá-la — mas saíam de lá consoladas por ela. Gostava muito de cantar o hino Oliveira Verdadeira, do Trio Alexandre, mantendo a esperança e a paz até o fim.

Ao receber hoje uma foto enviada pela minha prima Jane, um verdadeiro filme passou pela minha cabeça. Lembrei de cada detalhe, de cada ensinamento e do exemplo de vida que minha mãe nos deixou.

Elizabeth de Moura dos Santos nos deixou no dia 7 de setembro de 1993, por volta das 17h, e descansa em sua terra natal, Ferraz de Vasconcelos. No entanto, o seu legado de amizade sincera, generosidade e amor ao próximo continua vivo em cada um de nós e nas memórias da Vila Perracini.

E para eternizar ainda mais a história e o nome da minha mãe, minha filha carrega com orgulho o legado do seu nome — nascida no dia 25 de setembro, justamente o Dia do Rádio, data tão simbólica para a comunicação e para a nossa trajetória.

Saudades eternas da minha mãe, a eterna Beth do Perracini.

Adilson Santos é jornalista multimídia, radialista, repórter fotográfico e gestor da Rádio PCA e do portal POÁ COM ACENTO. Com trajetória iniciada no fotojornalismo factual — marcada pela cobertura histórica do Voo 402 da TAM —, dedica sua carreira ao jornalismo comunitário, à liberdade de expressão e à análise de políticas públicas e mobilidade urbana no Alto Tietê.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Sem voz e sem cadeira: O silêncio forçado da Imprensa no Concurso de Miss

Por Adilson Santos


A realização da Orquídea Fest em Poá traz à tona, mais uma vez, o brilho, a tradição e a expectativa de um dos momentos mais marcantes do calendário cultural da nossa cidade. No entanto, por trás dos refletores e da passarela do concurso Miss Orquídea, o enredo que se repete nos bastidores carrega um tom amargo e profundamente indigesto. Pelo segundo ano consecutivo, a categoria da Miss Imprensa foi simplesmente varrida da programação.

À primeira vista, para o público leigo, pode parecer apenas a ausência de uma faixa ou de um título secundário. Mas para quem vive o jornalismo regional no chão da fábrica — com a poeira da rua nos sapatos e o compromisso ético de dar voz à comunidade —, essa omissão é um sintoma escancarado de algo muito maior: o desrespeito sistemático à imprensa local.

A escolha da Miss Imprensa nunca foi um mero capricho estético. Trata-se de um gesto histórico de integração, respeito e reconhecimento institucional. Os jornalistas, radialistas e comunicadores que acompanham a cidade 365 dias por ano — cobrindo desde as mazelas dos bairros esquecidos até os eventos de gala — eram chamados a avaliar o carisma, a comunicabilidade e a desenvoltura de quem representaria a imagem pública de Poá. Cortar esse espaço é declarar, em bom som, que a imprensa só serve para reproduzir releases oficiais e aplaudir a gestão de turno.


Essa decisão — fruto da miopia compartilhada entre a empresa contratada para organizar o evento, a Prefeitura e as Secretarias de Comunicação e Cultura — revela um boicote silencioso ao empreendedorismo jornalístico regional. Empreender no jornalismo independente no Alto Tietê é um ato diário de resistência. Manter um veículo vivo, pagando contas e produzindo informação de credibilidade sem se curvar a pressões, exige uma coragem que poucos conhecem. Quando os órgãos públicos e produtoras terceirizadas escanteiam quem produz notícia local, eles tentam apequenar a força de quem fiscaliza e documenta a história da cidade.

Contudo, a reflexão mais incômoda precisa ser feita da porta para dentro da nossa própria categoria. Essa postura de desdém por parte dos organizadores só se perpetua porque falta união entre os colegas de imprensa. Enquanto a categoria continuar fragmentada, aceitando passivamente o papel de mera espectadora nos eventos em que deveria ser protagonista e parceira, seremos tratados como figurantes dispensáveis. O respeito não se pede por favor; constrói-se com postura, firmeza e corporativismo.

A Orquídea Fest pertence ao povo de Poá, e a imprensa é a ponte que conecta essa festa à memória coletiva da nossa gente. Fechar as portas para o olhar e o voto dos comunicadores locais não apaga o nosso trabalho, mas expõe a pequenez de quem prefere o silêncio da concordância ao valor da imprensa livre e respeitada.

Como repórter e editor, enxergo este momento como um divisor de águas para a nossa categoria na cidade. Se desejar fazer algum ajuste no tom ou incluir algum desdobramento específico sobre a cobertura da festa, estou à disposição.

Adilson Santos é jornalista, repórter, fotógrafo, locutor, produtor e apresentador, atuando como editor responsável pelo portal POÁ COM ACENTO (www.poacomacento.com) e proprietário da Rádio Flash Back (www.radiopca.com). Nascido, criado e morador de Poá (SP), consolidou sua trajetória na imprensa ao se tornar fotógrafo de jornal de forma marcante quando presenciou e registrou em primeira mão o primeiro acidente aéreo da TAM no Aeroporto de Congonhas. Diretor da Ângulo Produções, dedica sua carreira à cobertura comunitária, à fiscalização de serviços públicos e ao fortalecimento do jornalismo regional independente no Alto Tietê.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O olhar jornalístico no cotidiano do cidadão

Por Adilson Santos

Por trás do cidadão comum que caminha pelas ruas do seu bairro, existe um profissional cuja mente nunca se desliga do compromisso com a verdade e com a coletividade. O repórter é, antes de tudo, um cidadão formado com valores de respeito ao próximo e foco no bem-estar comunitário. A diferença é que ele carrega consigo, 24 horas por dia, o olhar atento do jornalismo.

Essa prontidão constante não é exclusividade da imprensa; ela faz parte da essência de profissões dedicadas ao servir. Se um médico em um voo comercial socorre um passageiro passando mal, ele o faz pelo dever hipocrático e pela vocação de salvar vidas. Do mesmo modo, se um policial presenciante de um crime intervém, ele age movido pelo tirocínio e pela responsabilidade do seu oficio. Recentemente, um episódio emblemático ilustrou esse tirocínio de forma drástica: um influencer entrou em uma loja de veículos e anunciou um assalto de brincadeira, sem saber que um dos clientes era um policial civil de folga. Diante da ameaça percebida e agindo em legítima defesa, o policial reagiu imediatamente. O fato expõe uma realidade indiscutível: certas funções não se desarmam quando o expediente encerra, e a sociedade não é palco para imprudências.

No caso do jornalista, o dever social se traduz na fiscalização e na busca por soluções para a comunidade. Quando ando pelas ruas e me deparo com um cano vazando, esgoto a céu aberto, lâmpada queimada na iluminação pública, calçada tomada pelo mato ou até mesmo um alimento exposto de forma inadequada na vitrine de um supermercado, não posso me abster. O repórter comunitário tem a obrigação ética de transformar aquilo que observa em informação e cobrança pública.

Eu tenho plena consciência do papel que exerço. O jornalismo comunitário não se resume a relatar problemas; ele existe para gerar resultados concretos para a população. Vemos na prática o impacto dessa atuação: ao cobrarmos as autoridades e os órgãos responsáveis, a iluminação pública é restabelecida, filas para exames e consultas com especialistas andam e vidas são salvas.

Um exemplo marcante disso ocorreu com uma senhora que foi transferida do Pronto Atendimento Guido Guida, em Poá, via "vaga zero", e acabou deixada em um corredor insalubre, próximo ao depósito de materiais de limpeza do Hospital Santa Marcelina, em Itaquaquecetuba. Foi somente após a nossa cobrança e denúncia que ela recebeu o atendimento célere e humano que todo cidadão merece.

Exercer a cidadania com o olhar do jornalismo não é apenas uma profissão — é uma missão diária em defesa do povo.


Adilson Santos
é jornalista multimídia, radialista, repórter fotográfico e gestor da Rádio PCA e do Portal POÁ COM ACENTO. Com trajetória iniciada no fotojornalismo factual — marcada pela cobertura histórica do Voo 402 da TAM —, dedica sua carreira ao jornalismo comunitário, à liberdade de expressão e à análise de políticas públicas e mobilidade urbana no Alto Tietê.

terça-feira, 17 de março de 2026

O camarote do respeito e a dignidade no jornalismo regional

 Por Adilson Santos


A recente coletiva de imprensa realizada pela Prefeitura de Suzano, para o lançamento dos festejos de 77 anos da cidade que se iniciam em abril, trouxe à tona uma reflexão que vai além do cronograma de shows ou entregas de obras. Trata-se de algo fundamental, mas que por vezes parece esquecido: o respeito e a dignidade no exercício da nossa profissão.

Vivemos em eterna evolução. Como bem dizia o saudoso vereador de Poá, Agenor Pereira — figura brilhante em congressos de municípios pelo Brasil —, "só não muda de ideia quem não tem". E é sob essa ótica de aprimoramento constante que precisamos observar o tratamento dado aos profissionais de imprensa.

É preciso registrar o profissionalismo do jovem secretário de comunicação, Paulo Pavione, que carrega consigo uma bagagem sólida e um atendimento pautado pelo respeito. Da mesma forma, Fred Serench, da Pilar Eventos, mesmo com vasta experiência nacional, demonstrou humildade e sensibilidade ao acolher o pedido para tratar os profissionais de imprensa com a dignidade que a função exige.

O jornalismo existe para informar. Quando um repórter se desloca para um evento ou coletiva, ele busca a notícia, a informação exclusiva e o registro técnico. Diferente de alguns — felizmente poucos — que confundem o espaço profissional com momentos de "tietagem", o verdadeiro jornalista é o elo entre a municipalidade e o cidadão. E quem informa, merece condições para tal.

Durante a coletiva, este repórter pontuou a necessidade de acesso livre e infraestrutura, um raciocínio que foi prontamente reconhecido pela organização e endossado pelo colega Gabriel Souza, do Mídia em Pauta. O que defendemos não é um privilégio, mas o "camarote do respeito". Liberdade de expressão e de exercício profissional são princípios constitucionais. Somos a voz da sociedade perante vereadores, prefeitos, deputados e até a presidência da República.

No entanto, há uma autocrítica necessária à categoria: falta união. Enquanto houver lamúrias isoladas em vez de um fortalecimento conjunto, continuaremos vendo retrocessos. Um exemplo claro é a nova Câmara de Ferraz de Vasconcelos, onde o espaço reservado à imprensa foi nivelado ao assento comum, sem mesas para notebooks, tomadas para carregamento de equipamentos ou uma internet de qualidade. Como exercer um jornalismo dinâmico e digital sem o mínimo de suporte técnico?

Não pedimos luxo. Pedimos dignidade, espaço e condições de trabalho. O acesso livre para registros, inclusive em colunas sociais, deve ser garantido respeitando-se o público, mas sem amordaçar o profissional.

Se não houver união para exigir que as instituições — sejam elas câmaras ou prefeituras — ofereçam essa estrutura básica, a separação e o atraso profissional continuarão sendo o nosso maior obstáculo. O respeito à imprensa é, em última análise, um respeito ao direito do cidadão de ser bem informado.

Adilson Santos - Repórter e Editor-Chefe do Portal POÁ COM ACENTO, diretor da Agência Ângulo Produções, diretor da Rádio PCA, diretor executivo da ABME-SP, e gestor de negócios e marketing do Jornal Argumento